segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Vã
Apenas por sê-la
Erguida em hastes de sol
Acima dos corpos
E vem em vão
(desmantelada)
E vai e finda
Dentro do oco
Dentro do vão
Dentro do nada.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Mãe negra
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Ordem
Vencer a inação. Frutificar.
Morrer dentro de si. Atropelar o caos.
Regenerar. Em flor, em verso, em vida.
Encabrestar a dor. Vaticinar a sorte.
Em lida, em trilha, em cor.
Silenciar a morte.
Serenizar.
Oásis
“E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.“ (Vinícius de Moraes, Ausência)
E assim, no silêncio habitual de longas datas, corações suspiraram aliviados. Era o primeiro poente que dividiam após séculos de afastamento - um imenso deserto houvera brotado entre as duas vidas. E ali, exatamente num encontro acidental de olhares dispersos, fez-se lar... e mar e céu e tudo mais que rutila aos olhos sedentos de quem vive. Terna comunhão de almas poentes e sóbrias ante dor e riso, solidão e pertencimento, luz e escuridão. E mesmo o deserto, em sua frieza noturna e alheia, fez-se abrigo. Amar é estar em casa.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Acalento
domingo, 19 de julho de 2009
Cinza
Já não há mais
Querer
Perdeu-se no ar
Sequer restou
Penar
Ou sonho
Ou memória
Outro amor perece
Sob a sombra renitente
Do porvir
E a vida segue
Solitária
Imponderável
Sequer pergunta se há desejo
Indiferente
Nesta tarde nebulosa
Sob os céus
Nem luz, nem escuridão
A vida é cinza.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Idiomas
Edifico meu calvário
Sem respostas
Sem palavras
Sem avenças, pois
Túmulo inerte
Minha boca sepultada
Fere o verbo
Rompe o trato
Que idioma me sussurras?
Teu silêncio pós-canção reverbera
Mais que o tom
Mais que o dom
Mais que o nexo
Que tudo traz
Meu silêncio de esfinge desbotada
Ofereço quase sem querer
No meu dizer pelas avessas
Mãos atadas pela língua
Minha dor supõe a tua
E nada sabe.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Existencial
O céu em brasa aquece um novo alvorecer
Minha alma se aguça, já é dia
A noite foge, empalidece, o sol ressurge
O primeiro passarinho cantarola
E tripudia sobre os galhos da inocência,
Cantando forte, canta a vida, o seu destino
Vive a essência que no corpo resplandece
Eu, cá no peito, silencio o desatino
Nasce outro dia, minha alma anoitece
O céu em brasa aviva as dores do meu tempo
Meu corpo se recolhe, já é noite
De outro pesar, outra lembrança, a mesma sina
Um som escapa desta alma tão vazia:
Choro os pedaços dos meus sonhos de menina
Rouco, o meu peito solitário já não canta
Choro em silêncio, choro a vida, essa ilusão
O pensamento a dor do mundo desencanta
Um passarinho engaiolado chora em vão
O céu em brasa testemunha a minha dor
O sol levanta, é mais um dia de existência.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Agonia
migalhando virar grito,
sapateiam no estômago,
vão subindo efervescentes
palavras incógnitas
assim, arranhando o céu da boca,
cócegas aflitas
num frêmito sem fim,
sem merecer ganhar o ar
assim, como poesia no escuro do quarto
martelando o pensamento,
sem merecer nem o papel
assim, passarinho na gaiola,
goela rouca de cantar
sem merecer nem céu de chuva,
a imensidão fora das grades,
cavalos soltos no porão
sem saber o que é arreio
amiúde nesse meu peito
de eterna iminência
de não-sei-o-quê.
