quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Latência

Habito as horas demorosas desta noite
Os segundos gotejam espaçados
Seguem perdidos, um a um
No abismo das coisas ao redor
Desinventadas no escuro
Mas sabidas em mim 
De súbito – agora –
Quando à mansidão noturna
Segue-se o espanto:
            Encontro-me viva
            No ventre soturno
            De todas as coisas.

Toquinho – Pequena crônica confessional


Aquarela foi uma das primeiras músicas que aprendi a cantar, ouvia com minha mãe em casa. Depois, um pequeno coral na escola em alguma série primária, toda a classe cantando junta... os ensaios... lembro-me bem. A música doce, a imaginação solta pelos versos, um mundo de sons, cores, dúvidas... “por que tem um muro, mãe?”, “onde fica Estambul?”, “que cor é grená?” e “e o futuro?”...

E lembro-me bem do meu espanto de menina ao conceber a ideia de que um homem – algo tão grande – pudesse singelamente ser chamado de “Toquinho”. Vi a imagem na tv, olhos pequeninos, a fala mansa.. as covinhas do rosto como se sorrisse sempre, mesmo sério. Toquinho era um menino grande. Amei cedo.
 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Solo

Anda, pequena
Amarra bem os teus cabelos
Que há vento lá fora

Depressa, não há tempo
Guarda o teu sorriso bobo
Para o depois, se houver

Se houver, pequena, vamos
Abotoa os teus sapatos
E caminha grave a passos firmes

Que a solidão é uma estrada
Que atravessa a vida toda.

domingo, 31 de outubro de 2010

Descaminho

“Mas como as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo... possam eles, ó meus amigos! - efêmeros filhos de minh’alma - levar uma lembrança de mim às vossas plagas!”
(Castro Alves, Espumas Flutuantes; prólogo)

Vaga de mar em meu peito
Tua memória permanece
Baldia, latente, revirada
Foram caminhos de mar
Trilhados sem rota
Em madrugadas despertas de silêncio
Aqueles teus passos tão meus
O mar amanhecendo à nossa vista
- indecifrável como sempre -
Flutua ainda uma névoa azulada de mistério:
Em que maré se foram rumar
Rebatidas de cansaço
Nossas solidões?
É tarde, eu sei
É muito tarde, caminho
Por ruas longínquas
De terra firme sob os pés,
Mas permanece inalterado
O mar imenso de saudade
Daquele tudo
Que não ousamos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Hoje Eterno

(para Vitor, meu amor amigo)

Vem comigo hoje
Que esse cansaço torto
Se debruça como um cão à minha porta
Mas vem assim, para mim
De olhos abertos
Nesta manhã vagarosa
Agudamente terna
E desata tua dor
Às claras
Sobre meu colo de chumbo
Andaremos sim
Por aí, sem direção
A recordar
Sem esforços
As noites pardas pelas ruas
A fumaça a enovelar nossas cabeças
Como num sonho
De momento
Em que nos percamos
Eternamente.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Avesso

Silêncio na sala, me tenho só
As horas dormem
Por dentro das horas
O sono repousa calmo
No corpo da casa
Em mim, pelo avesso
Lívida insônia contradita
É noite - em claro -
A solidão desliza no meu corpo
Lânguida, por dentro
Mansamente
Caminha só - em si -
Morna, discreta
Faz silêncio sob a pele
Palavra muda
Desvigiada
Me cala
Por dentro.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Desvairada

Passa a tarde, passa o dia, o tempo, o nada
Horas espinhadas pela sala, tudo enfim se cala
Que há em mim deste meu lar de calmaria
- ceias silenciosas, o som na tarde, as horas -,
De noites varadas a fio, enfim, que há?
Serei aqui, será? Aqui, além? Já não o sou?
O vento arrasta folhas na varanda, leviano
Traz à memória homens do mundo
A sacudir em desalinho como as folhas
- secas, pelos ares, sem razão -
Serei eu aquele homem solitário
À margem da estrada pela noite
E serão meus aqueles seus olhos de nada?
Horas a fio ali no breu, estradas passadas
Será ele eu mais do que eu, assim vazio, leviano
E eu em mim, assim, como um disfarce
De moça desvairada desse lar - o mundo à margem?
Meu juízo a crepitar no breu da noite
A noite, as horas passando, espinhadas
Que há de mim neste penar em desalinho
Arrastado pelo chão, lançado aos ares desse dia?
Serão as folhas? Serei eu? Já não as sou?
Os homens do mundo dentro de mim
Sou eu pelos ares - feito folhas, sem razão -
Asas do meu juízo - minha margem de calma -
Esse caminhar no ermo aqui por dentro
Tudo lá fora treme ao fim
De dias calmos embalados pelo vento
De horas passadas pela sala,
O lar, a varanda, o tempo, o nada, tudo treme
Ao fim do meu juízo no breu da noite,
Do sacudir das minhas asas de juízo
- pássaros em revoada à margem do dia -
A tremer em desalinho à margem da calma
Feito os homens levianos
Dentro de mim.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Salto

(para os meus Mano, Nique e Fafi)


Era guerra

Era guerra e amor

No corpo triste

Triste de ter e deixar

Novamente

Era dor

De subir e chegar

E calhar no vértice

Alto da minha razão

- aos poucos esvaída -

Entre lucidez e torpor

À beira do salto

Da despedida

Adeus

Era amor.

domingo, 18 de abril de 2010

Sonho e Sal

“É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo”
(José Carlos Capinan; Movimento dos Barcos)

Embarcação lançada nas águas
Meus pesares no teu mar
De ondas insólitas
Balanço sem norte
Meu sonhar fecundo
De beber dos teus olhos
O verde do mundo
Destas águas revoltas
Te levar para além
(na proa, meu bem)
Do ventre do mar
Curar nossa dor
Em beijos de sal
Viver em ti
Em ti fenecer
Para além de mim
Por fim
Naufragar.